O porto
Morre nas partidas,
Vive das chegadas
E vem das ondas sustentadas
Ofertar a terra forte que se pisa.
Meu porto é corpo ostentado,
Lugar de sorte vã e de magia
Que nas curvas mais inesperadas
Vêm parar as tristes horas
Que me fazem companhia.
Morto o lenço fraco,
Sacudido com tristeza na partida
Fica o frio no porto e o laço
Que forçosamente parto
Pra na volta não manter a chama viva.
Bicho grilo
Sou largada feito um bicho grilo.
Não obedeço à regras nem consensos,
Por vezes esqueço-me o que penso
E não volto nunca atrás do que consigo.
Minha vida corre sempre muito alheia,
Às vezes perco o timbre, perco a meia.
Sabe lá, calcinha ou meia!
Mas não sou além do mais
Maior que as coisas que cativo.
Prudência
Como a folha que caminha sem andar.
Ou passa em voltas feito ventania
Que em meia volta mostra a cara
Para me lembrar...
Que é mais fria a mesa
Quanto mais se espera para sentar,
Que é mais fresco o vinho se bebido
Em tempo de engarrafar.
E que prudência é qualidade
Que por vezes faz atrapalhar.
O farol
Junto a tudo o que edifiquei
Veio a sorte má e derrubou.
De tudo, o nada em troca me deixou
E só, com a vida aqui fiquei.
Quem conta um conto...
E cada uma conta um pouco sobre mim.
Pois cada um que no caminho as encontra
Versa um conto meio louco sobre mim.
Cada qual pensa que sabe o que não sabe
E vão somando cada conta até o fim,
Contando tudo e um pouco mais do que não cabe
Construindo-me um colar pesado assim.
Pesa tanto que já ando encurvada,
Contando os frisos do solado que caminho,
Juntando as contas em um fio de puro nada
E rindo junto do falar que não confio.
Poeta da noite
Quem poderia misturar melhor
num caldeirão de pensamentos
três pás de vento,
Três tons de mal,
dois mais de um pessimismo seco
e uma veia tensa de um romantismo negro
que faz nascer daí um texto:
pergaminho sempre vivo e surreal.
Cabo das tormentas
(cemitério de navios)
Eu quero que a água que trouxe
Leve de volta.
Pois desde sempre recolhi na beira
Os pedaços de tudo que a maré
Carregava enjoada e revolta.
Eu nasci na cidade das águas
Onde mar tem trazido os destroços de si.
Recolhi cada qual como o nada,
Cada um como um pouco de mim.
Mas não pude evitar a chegada.
Quando formavam de todo um navio
Colocavam-se em pé sobre a água,
E partindo sem dó nem parada
Só deixavam comigo um vazio
E uma voz em tormenta velada.
Que leve de volta
E na volta não morra tão calma.
Pois que eu que embalei a jornada
Já não tenho mais força nem alma
Para juntar os pedaços de mim.
Ando
porque não tenho resposta.
E cada dia que passa
é menos um deles.
Caminhar pela rua sozinha
traz uma sensação estranha
que a muito tempo
meu ser não sentia.
É um passo em liberdade
mas um passo com saudade
de outras vozes, outras vidas
que ficaram pelos bancos da cidade.
Meus Deus!
Aonde vão esses meus passos?
Que mulher perdida
esse meu tempo fez de mim!
Entre Freud e Kant
A salvação a qual procuro
Não mora numa casa ensolarada
Mas num quarto sempre escuro.
A salvação a qual procuro
Não reside em prece, em carne morta;
Mas em ter um tal controle do impulso.
A salvação a qual persigo
Nada tem a ver com aqueles
Que se julgam merecedores de outro céu,
Nem com a vida em cativeiro,
Nem com a morte em redenção,
Mas sob a liberdade de escolha
Que ocupa toda a forma pura de razão.
Sou apenas Um
Já não seria apenas Eu.
Pois meu espírito se funde
Na tua paz, na tua luz,
E nalgum momento se mistura
E se confunde com o teu.
Se eu não fosse tu
Meu tempo não seria meu.
E meu ser já não teria mais espaço.
Pois pelas velhas ruas onde passo
Não caminho cega e nua,
Caminho agora em firme passo.
Se eu não fosse tu
O amor que tenho não seria teu.
Seria de qualquer que visse a pele nua,
Que confunde o corpo e a mente.
Pois se me defino tua simplesmente
É porque me faço em tua alma plenamente.
