Há sobre a mesa um velho par de óculos Daqueles que se esquecem dos ouvidos. E tal melancolia vem e me alcança Que já não sei se choro, não sei se rio.
É que nos olhos daquele que é cativo Uma medonha semelhança se incendeia E faz correr o sangue forte pela veia E faz voltar aquela voz da qual eu vivo,
Que diz que a moça é torta e criminosa, Que não caminha como as outras, Que é chorosa e meio louca E que é da vida a sina de ser rosa.
Caminho entre a gente Porque me pareço com a gente. E meus passos são de guerra, Minhas vozes são de cólera Meus algozes, frios e fortes. Minhas lutas são de morte.
Não temo frio, não temo vento. Temo a algema e o passar do tempo Que por vontade ignorante Fez cair no esquecimento O que é de nós vontade pura E o que nos deve o pensamento.
E desce Em tamanho e proporção Uma chuva densa e grave Que de pingo em gota Vai formando poça E estalando forte sobre o chão.
Se cada gota me levasse Da memória uma lembrança Já teria enchido um poço Com história e amores, Com recordações e contos, Com meus pobres velhos rostos.
Mas é prata que cintila A água fina que desagua. Não é triste nem é nada É apenas pura água O que escorre e o que se cura E que desmancha na calçada.
Diz sem dizer, Fala sem falar. Pois sobre a garganta muda se acumula um peso, Uma pesada mão invisível Que lhe faz até o soluço calar.
Nos mais profundos olhos Marejados de cinza Lampejam raios de prata, Navegam barcos de tinta Que o silêncio, de todo, Já não os pode amparar.
Não é o medo O que pinga entre os dedos. É o acumulo do tempo, A razão partida no meio, O brotar d’uma ruga suave Que a idade não pode explicar.
E nem a ideia falha Se basta naquele momento Em que a tempestade faz curva, Em que a ventania faz vento E que a alma frágil se parte E se revolta toda por dentro