Dedico o verso

Te dedico este verso
De palavras tão pardas,
Corações tão frágeis
E melodia quebrada.

Queria que o som
Que voasse do nada
Me viesse, sonora,
A cantar tua história.

Sei da tua morada,
No meu seio e de cada
Sensação entoada
Em teu tom, direção.

Por favor não me mate,
Nem me cure tão forte
Pois eu quero viver
Deste som que me falta.

Hoje só sei que me bate
Num vagar sem a causa
Um sonar que não pausa
E que grita o teu nome.

A febre d'outono

Minha doença é dos olhos
E eu já não tenho pouca febre.

Minha esperança é intensa
E minhas preces, todas leves.

Adoeço nestes dias tão tensos
Como não eram noutras épocas.

E minhas angústias no lenço
Me levam sempre aonde querem.

Admiro os que não cismam,
Os que não olham somente com os olhos,

Os que não matam, não mentem,
Nem cultivam memórias tão breves.

Minha doença é dos olhos:
Quanto mais me vejo, mais adoeço,

E os fios do laço que guardam o tempo
Conservam de todo o calor da febre.

O porto

O porto não vai a lugar algum,
Morre nas partidas,
Vive das chegadas
E vem das ondas sustentadas
Ofertar a terra forte que se pisa.

Meu porto é corpo ostentado,
Lugar de sorte vã e de magia
Que nas curvas mais inesperadas
Vêm parar as tristes horas
Que me fazem companhia.

Morto o lenço fraco,
Sacudido com tristeza na partida
Fica o frio no porto e o laço
Que forçosamente parto
Pra na volta não manter a chama viva.

Bicho grilo

Não se enganem comigo,
Sou largada feito um bicho grilo.

Não obedeço à regras nem consensos,
Por vezes esqueço-me o que penso
E não volto nunca atrás do que consigo.

Minha vida corre sempre muito alheia,
Às vezes perco o timbre, perco a meia.

Sabe lá, calcinha ou meia!

Mas não sou além do mais
Maior que as coisas que cativo.

Prudência

Minha sorte é peregrina
Como a folha que caminha sem andar.
Ou passa em voltas feito ventania
Que em meia volta mostra a cara
Para me lembrar...

Que é mais fria a mesa
Quanto mais se espera para sentar,
Que é mais fresco o vinho se bebido
Em tempo de engarrafar.
E que prudência é qualidade
Que por vezes faz atrapalhar.

O farol


Olhai, comei, bebei!

Junto a tudo o que edifiquei

Veio a sorte má e derrubou.

De tudo, o nada em troca me deixou

E só, com a vida aqui fiquei.

Quem conta um conto...

Quantas contas já deixei pelo caminho!
E cada uma conta um pouco sobre mim.

Pois cada um que no caminho as encontra
Versa um conto meio louco sobre mim.

Cada qual pensa que sabe o que não sabe
E vão somando cada conta até o fim,

Contando tudo e um pouco mais do que não cabe
Construindo-me um colar pesado assim.

Pesa tanto que já ando encurvada,
Contando os frisos do solado que caminho,

Juntando as contas em um fio de puro nada
E rindo junto do falar que não confio.

Poeta da noite

Para meu amigo Everton

Quem poderia misturar melhor
num caldeirão de pensamentos
três pás de vento,
Três tons de mal,
dois mais de um pessimismo seco
e uma veia tensa de um romantismo negro
que faz nascer daí um texto:
pergaminho sempre vivo e surreal.

Cabo das tormentas

(cemitério de navios)




Eu quero que a água que trouxe

Leve de volta.

Pois desde sempre recolhi na beira

Os pedaços de tudo que a maré

Carregava enjoada e revolta.


Eu nasci na cidade das águas

Onde mar tem trazido os destroços de si.

Recolhi cada qual como o nada,

Cada um como um pouco de mim.

Mas não pude evitar a chegada.


Quando formavam de todo um navio

Colocavam-se em pé sobre a água,

E partindo sem dó nem parada

Só deixavam comigo um vazio

E uma voz em tormenta velada.


Que leve de volta

E na volta não morra tão calma.

Pois que eu que embalei a jornada

Já não tenho mais força nem alma

Para juntar os pedaços de mim.

Ando

Não perguntes como eu vou
porque não tenho resposta.
E cada dia que passa
é menos um deles.

Caminhar pela rua sozinha
traz uma sensação estranha
que a muito tempo
meu ser não sentia.

É um passo em liberdade
mas um passo com saudade
de outras vozes, outras vidas
que ficaram pelos bancos da cidade.

Meus Deus!
Aonde vão esses meus passos?
Que mulher perdida
esse meu tempo fez de mim!

Quem sou eu

Minha foto
Sou o verbo: o estado, o tempo e a ação contínua.

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